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Fortalezas e Palácios do Rajasthan, India

5 de Abril de 1999

Já acabaram as intervenções no seminário de literatura comparada no Delhi College of Arts and Commerce da Universidade de Delhi, já passou o debate sobre José Saramago na universidade de Jawaharlal Nehru, já estamos num jeep (um Tata Sumo, dizem-me) percorrendo o Rajastão. Prendem-me agora os olhos as extensas superfícies ocres, as dunas do deserto Thar já próximo do Paquistão. De quando em quando... uma surpreendente mancha de cores vivas (amarelo, rosa, vermelho, laranja, verde, azul, indigo): são mulheres trabalhando no campo que é mais terra do que vegetação, que é mais seco que fértil. Sentam-se em círculo (conversando?) enquanto peneiram a areia em que tocam como ente próximo precioso (sabe-se lá por e para quê...—perguntei-me depois: para arear a loiça tão impecavelmente areada?). Escondem os rostos tímidos nos panos do Odhani, um amplo tecido que cobre o Ghaghara (Gagra), um body que atam atrás da costas. Uma profusão de ornamentos as enfeitam—desde a cabeça (testa, nariz com um fio ligado às orelhas, por sua vez com brincos, dentes, colo), aos tornozelos e dedos dos pés passando pelos braços e pulsos completamente preenchidos pelas bangles de marfim, a cintura marcada pelo Kandora.

"Tanta loja de jóias num país tão pobre!", comenta Zene, nossa companheira de viagem. E diz uma das mulheres de lá:

"Contrary to what most men (my husband included!) believe, jewellery is not purely decorative. The weight of an earring, girdle or anklet is believed to exert subtle pressure on nerves which promotes the wellbeing of the body’s internal organs."

Às vezes, de manhã cedo ou ao fim da tarde, vemos-las caminhar ao longo da estrada out of nowhere. Virão do poço, carregam ao alto belos potes de metal bronzeado ou barro claro, os matkas. A água é tão escassa que o provérbio indiano "Gota a gota se enche o oceano" assume aqui uma versão mais contida provando a escassez desse elemento propício à vida: "Gota a gota talvez se encha o matka/o pote".

Parecem mais vultos ou miragens do que gente a sério. Não parece possível ser tão feminino e doce num ambiente árido que julgaríamos mais próximo do homem—só que estes trabalham pouco, sentam-se em palanques (por causa das cobras?), conversam, aguardam o trabalho delas e fazem-lhes desejavelmente filhos (abençoados) em vez de filhas (dão-lhes ópio à nascença ou põem um saco com areia sobre as narinas e desejam-lhes a morte; são um encargo pesado por causa do dote que implicam).

7 de Abril de 1999

Imagino como cantam. Alguém canta para nós. Mulheres invocam a chuva desde o terraço das casas, saúdam o regresso do amado, choram a sua ausência. Uma das canções (Paniharee, mulher que transporta água) evoca-me um romance peninsular (Bernal Francês, por exemplo): junto ao poço, um grupo de mulheres felizes vestidas com roupas de cores vivas e ricamente enfeitadas. Uma delas, triste e pouco decorada por jóias (as jóias ficarJaisalmeram guardadas em casa porque está longe quem as podia admirar, o seu par, o marido), esquece-se de recolher água no tanque e deixa-se ficar só. Pensa no (seu) homem que partiu para o negócio de camelos. Alguém se aproxima e a tenta. Um sedutor de olhar familiar: o seu cunhado?

A rapariga resiste, regressa a casa e conta à sogra que, muito sabedora, percebe tudo: era o marido regressado de longe testando a fidelidade da mulher, que volta a cantar e que, pelo canto, reencontra o seu amado.

10 de Abril de 1999

Ocorrem-me momentos da tradição popular portuguesa—fios de voz ligam estas portadoras do saber tradicional, mnemones, arquivos vivos da ancestral memória.

Na Índia como em Portugal caminham dignamente nas bermas da vida difícil, dolorosa e, tantas vezes, tão injusta. É certo que a geografia separa estes corpos férteis, femininos, bem como o solo a que se ligam. Na Índia, a terra seca é furada por um poço e uma nora de água é movida por um animal. Em Portugal (mais verde), as noras são idênticas e acontece, em certas zonas, serem movidas por uma mulher. Chamo-lhes mulheres da roda porque trabalham, amam, cantam e assim fertilizam o campo em seu redor—para que alguns vegetais nasçam e nutram a família que lhes cumpre alimentar.

Conheci uma dessas mulheres (anónima, de Dornelas, Ferreira do Zêzere) num filme de Alfredo Tropa realizado nos anos 70 para uma série da RTP: "O Povo que canta: vozes e imagens", um programa da autoria de Michel Giacometti, produzido por Francisco d’Orey e Manuel Jorge Veloso. Estudei-a em tempos enquanto metáfora da condição humana terrena. Numa postura de trabalho (tripalium, tortura), técnica (capacidade de executar, levar a bom termo) e arte (a voz, o canto ritmando e gerindo o esforço), esta mUdaipurulher (agarrada às travessas, de pés ajustados às traves, caminhando sobre o rasto, estreita tábua de ferro que reveste o disco) acciona toda a estrutura do engenho de rega composto de disco e alcatruzes—assim se erguendo, literalmente, entre o céu e a terra para operar uma transferência de lugar: ela eleva a água que há-de regar o campo que há-de dar o fruto que há-de alimentar a mulher (que há-de ter o filho) que há-de mover a roda que há-de elevar a água que há-de regar o campo... que há-de esconjurar a morte e entreter o tempo...

Ana Paula Guimarães, extracto de "DIÁRIO DE VIAGEM POR MEMÓRIAS" in Nós de Vozes. Lisboa, Colibri, 1999


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