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Marrocos: Berberes do Monte Toubkal

A chegada. Assim que um avião desliza as suas rodas numa pista de aterragem, sentimos desde logo a sensação estrangeira de penetrarmos no ventre cultural de outra nação, de outro povo, outra tribo. Dar os primeiros passos nesses terrenos, traz-nos a mistura absorvente dos cheiros com as cores, esses ocres desérticos mas envolventes, os sabores que a brisa nos traz e que se enrolam na língua, e a transformam num rolo de gostos e paladares. A noite cai como uma manto que nos cobre o corpo. Ouvem-se sons estridentes, latas que batem umas nas outras, vozes que gritam pela clientela mais afoita e que rapidamente se aventura numa mesa corrida de pratos repletos de especiarias e outros condimentos, cozinhados por mãos que haviam ainda há pouco movido ferros sujos para cobrirem as bancas, fugindo de umas gotas de chuva traiçoeira. Mas este jogo de meia sujidade parece ser quase um cartão de visita, e os nossos pensamentos alegram-se em divertidos olhares para a panóplia de discussões e de confrontos pela luta de mais um cliente. A espetada. O cuscuz. A Fanta Orange. Este espectáculo é completo com danças de cobras, vendedores de água, miúdos que pedem, bancadas de sumo de laranja e outros afins. Esta é a praça principal de Marraquexe. Marrocos. Uma cidade onde o transito caótico para os ocidentais é a normalidade para estas gentes que atravessam o Ramadão, período sagrado de sacrifício pessoal dos crentes no Islão. Ouvem-se as rezas, os corpos que deslizam como ondas, os tapetes, as mulheres de um lado e os homens de outro, as mesquitas. Mas nesta ribalta muçulmana uma pergunta começa a assolar-nos: o que nos espera? Com este calor, esta humidade que se agarra à pele, abraçando-a e preenchendo-a, o que nos espera no próximo dia, na manhã seguinte?

A carrinha saiu cedo. Kilometros palmilhados numa toada suave, fora do controle da policia, sentindo o sono a querer regressar-nos ao peso dos olhos. A temperatura fresca dava-nos o alento para acreditar que havia uma força maior a proteger-nos. Mas enquanto subíamos a cordilheira do Atlas, a simples frescura era acompanhada por uma chuva ainda miúda, ainda acabada de nascer. Paramos numa aldeia, em que o guia nos deu a indicação para nos prepararmos. Mas agora chovia imenso. Como podíamos começar a caminhada debaixo de um quase dilúvio instantâneo? Estávamos meio baralhados, perdidos nas ideias, arrebatados numa certa pergunta: o que me deu para me meter nisto? E fomos chamados para dentro de um café, ou um local de encontro, ou um sitio com uma pequena sala, uma espécie de refugio, onde sentamos os corpos em cadeiras de plástico e começamos a nossa aventura com o chá de hortelã. Mas logo sentimos que algo estava a acontecer. Do alto das montanhas, a natureza acabava de vomi tar uma torrente de pedras e água. Saturou a estrada, os caminhos, as vielas, os passeios, ou mesmo os frágeis alpendres de madeira e palha. Estávamos absortos com tal surpresa. Os nossos olhos absorviam cada movimento de água, cada som estridente de pedaços do planeta a rolarem como berlindes pela cascata improvisada da aldeia. E a caminhada? Estávamos cada vez mais pensantes, cada vez mais questionados sobre se estas seriam as nossas férias desejadas. Mas fomos surpreendidos por outra força ainda maior que a do dilúvio. A força das pessoas, do povo, da cultura que logo se juntou, sempre com um sorriso nos lábios, para se ajudarem. Uns pegavam em paus grossos e tentavam delinear o percurso daquele novo rio. Outros davam as mãos para mulheres e crianças puderem atravessar a torrente. Não deitaram as mãos à cabeça, nem pensaram quanto poderiam pedir de subsídios ao estado, fizeram sim a junção de esforços, de um acreditar quase milagroso e de uma vontade assaz surpreendente. E todos e les em jejum, sim, porque durante a travessia do sol pelo dia, nem água nem comida pode trespassar a porta dos seus corpos. Fica tudo do lado de fora, esperando pelo deitar do sol, no leito da noite.
E de repente fomos sequestrados de novo pela nossa carrinha, uma Ford Transit de um ano que nem dá para ter lembranças, e somos levados para outra aldeia, ali perto, mas que se tornou mais longe, devido aos entraves na estrada que o dilúvio acabara de provocar. Chegou-se a ver um precipício logo ali, diante dos nosso olhos, enquanto o condutor persistente, teimava em dizer aos entulhos espalhados na estrada, que era mais forte, mais poderoso, aliás, nada como vir atrás e tentar de novo. E assim chegamos a Imlil. 1750 m de altitude. Pequena vila encrostada no meio das montanhas. Vislumbrava-se o topo, o Toubkal, os vales repletos de árvores e zimbros, os miúdos que jogavam à bola, as mulas que haviam de carregar o peso das nossas mochilas, e os homens, esses simples homens que nos trouxeram sempre um sorriso, uma bondade, uma atenção, no meio de umas roupas quase eternas, molhadas, mas onde a força da sua simpatia arremessava para o infinito essa imagem de pobreza, e os engran decia, esses homens de jejum. Enquanto nós comíamos, nós, os Ocidentais. Amanhã será outro dia. Mas começamos a pensar que algo quis mudar a rota dos acontecimentos. Algo queria falar connosco. Mas agora repouso, descanso das emoções. Amanhã caminhamos.

O acordar é sempre aquele momento de renascer, de despertar para uma nova vida, um novo momento, uma nova oportunidade. Depois de mergulhados num coma sonolento, durante as horas que desenharam a noite, abrimos os olhos com o nervosismo na retina. Queríamos, desejávamos, ansiávamos em descobrir se a aventura do dia anterior fora mesmo real. E foi. Atrasamos um dia. Mas, a tal mensagem que parecia tomar forma, começava a falar-nos, a dizer-nos que estava tudo sob um controle remoto, uma força que nos empurrava para um sentido lógico. As pernas estavam preparadas. As mochilas idem. As roupas, as botas, os pensamentos, as mãos, as camisolas ou polares para os mais receosos ao frio, tudo estava preparado e pronto para darmos inicio. A manhã surgiu clara, com o sol a pontificar no mar azul de um céu que tentava arranjar espaço por entre as inúmeras montanhas que nos cercavam. Um pequeno almoço repleto de entusiasmo, de algumas risadas espontâneas e de um fulgor arrasador. Saímos e m passo curto, com o sangue a ferver dentro dos nosso corpos. Queríamos subitamente saber tudo, ver tudo, absorver tudo. Mas é impossível fazê-lo. E logo nos detivemos nessa verdade. Por cada passo que dávamos perdíamos algo, algo que ficava nas nossas costas, no nosso passado, e que talvez pudesse ter feito parte desta história. Mas isto acontecia porque começávamos a constatar uma quase infinita rede de sensações. As pessoas que cruzávamos, as mulas que carregavam, as casas, os ribeiros, os caminhos, as árvores, as pedras, os sentidos, o ar, a terra, os cheiros, as conversas, o silencio, as historias...
O grupo definia-se pelas personalidades diversificadas. Colamos algumas “alcunhas”, desde uma má circulação sempre pronta na resposta, um ranger “mafiosi”, um traumatologista bem disposto, um jornalista desesperado por um cigarro, uma psicóloga que a cada passo se questionava, e um físico sempre moreno, nunca vermelho. Todos guiados por um homem singular. Um guia em jejum, mas apenas de comida, pois atravessou os dias com uma fé invejável, um dom soberbo e exemplar, onde misturava o silencio com pequenos rasgos de sabedoria.
Subimos. Sempre a escalar a montanha, que nos dava um som único. As suas palavras eram esmagadoras ao ponto de ficarmos absortos com a sua dimensão. Cruzamos pessoas únicas. Garrafas de Fanta Orange ( talvez quase bebida nacional, juntamente com o eterno chá de Hortelã), cabras a viajarem em primeira classe ( quem sabe... já diz o povo... sabe), pessoas que adoravam uma pedra branca, símbolo muçulmano de crença em procriação humana. Repousávamos algumas vezes, para água, ou para umas barras energéticas, ou para uns sumos de laranja naturais ( deliciosos), ou mesmo para comermos uns frutos secos. Mas paramos também para o almoço, qual manjar servido entre os 2000 e os 3000m de altitude. Começávamos a pensar que afinal tudo isto era mesmo real.
Mas o real tornou-se perigoso. Um dos irmãos do grupo, um companheiro, um membro daquela nossa fraternidade montanhês, num pequeno descuido, sofreu uma fractura. A baixa deixou-nos apreensivos, pensativos, algo nervosos. O dilúvio, agora esta baixa, seria prenúncios de negativos súbitos? A sorte da proximidade de uma mula, esse transporte magnifico por estas bandas, ajudou a levar para o acampamento, a 3270m de altitude. Chagamos a um vale que recebia no seu leito um abrigo de montanha francês. O acampamento base do Toubkal. Aqui as culturas eram diversas, as línguas multiplicavam-se. Olhávamos em redor e éramos desde logo sufocados pelo erguer de cumes sublimes e elevados. Soavam no ar os sons de vários corvos, ou mesmo a forte enxurrada de um ribeiro vizinho. Jantamos, à luz de velas, um banquete servido com humildade, com a atenção de um chefe cuidado. E sorriamos. Soltamos gritos de união. Sentíamos o propósito de nos termos encontrado ali, naquele lugar, daquela maneira. Escrevíamos os nossos nomes na vida do próximo, trocávamos pequenas historias, sorrisos, abraços, carinhos momentâneos mas eternos, enfim, estávamos fortes, crentes numa frase e num propósito:” A União faz a força.”
Mas era chagada a hora de repousar. Encrostados na diversidade e quantidade única de roupas, aconchegámo-nos nas tendas, em busca de uma temperatura mais cómoda do que o frio intenso que a noite nos tinha trazido. Humidade quanto baste. Mas era noite. Nevoeiro. Silencio. Montanha e silencio.

Acordamos com frio na pele. Estranhamos a temperatura. Verão em Portugal e agora sentimos que estamos frágeis aos olhos do dia. As despedidas de um dos irmão do grupo torna-se pensativa, pois ficamos ainda apreensivos por ele e por nós. O que nos espera afinal? Vamos começar a caminhada em direcção ao sol, ao céu, ao tecto que se abate nas nossas cabeças, vamos caminhar para o desconhecido. Serão 1000m sempre a subir. Assim que fazemos a primeira meia hora, logo nos apercebemos que o dia não será fácil. A visão imensa sobre o refugio deixa-nos perplexos. Sinto a vertigem da fragilidade perante tamanha migalha que é o meu corpo. O silêncio continua a ser o som que escutamos. Fomos o ultimo grupo que partiu do refugio. Uns já desciam quando nos cruzamos, eles cheios de vitalidade, enquanto nós começávamos a sentir a ausência do oxigénio, esse presente que a natureza nos oferece assim que somos concebidos e todos os dias o esquecemos. O grupo torna-se lento, enquanto vamos fican do deslumbrados com o vale, as pedras que se tornam infinitas, as conversas dos que passam, a desorientação dos nossos receios. O calor substitui o frio. Agora sentimos a necessidade de tirar de nós a roupa que carregamos enquanto tínhamos o arrepio da humidade. E chegamos aos 4000m. Aqui eu padeci. A cabeça estava carente de oxigénio. As pernas tremiam. Sentia que não podia fazer esperar aqueles, que heroicamente, subsistiam ao sofrimento da subida. Deixei-os ir. A minha visão fixou-se no guia. Que homem único, sem nunca me cansar de o repetir, pois enquanto eu desidratava por falta desse outro bem essencial e tão esquecido, a água, ele mantinha-se firme, forte e ciente da sua crença, do seu jejum. Magnifico. Olhei em volta, e fiquei pasmado com a imensidão do Atlas. A distancia do meu olhar perdia-se no infinito desta cadeia de montanhas que circundam a minha existência. Fiquei absorto. Fiquei rendido. E veio a voz. Aquela voz interior que me dizia e falava sobre as pessoas, s obre a vida, sobre a essência. E nesse momento tive sede, o meu ser precisava de beber. Mas a inexistência desse liquido fez-me descer. Mas fui deixando recados, pequenos papeis escritos para os heróis do Toubkal, que foram aos 4167m de altitude. No caminho, feito na solidão de mim mesmo, a voz não me abandonou. Foi-me dizendo, enquanto os meus olhos banhavam-se em lágrimas, os segredos, o percurso dos meus medos, das gaiolas que teimo em armar dentro de mim, foi-me dizendo que afinal o meu nome é apenas um ponto na ínfima existência da Vida. O meu ego destruía-se a cada passo. Ficava esmagado, entalado no meio dos pensamentos.
Campo base. Espera. Cansaço. Refrescar a pele. E espera. Esperava pelo grupo. Fiquei parado durante quase 2 horas até vê-los de novo. Vinham exaustos, mas felizes. Descansados pelos bilhetes que encontraram, sabendo que eu não estaria mal. Eu dei-lhes a boa nova de que o irmão fracturado afinal não estava tão mal quanto chegamos todos a temer. Ficamos felizes. Estávamos felizes. Mais uma etapa. Almoço. Outro manjar. Descanso. Repouso para recuperar as forças. A noite chegou. Um homem abordou-me. Francês. Falamos de tudo, das paixões, das montanhas, das pessoas, da vida e descobrimos que ambos escrevemos. Que conversa, que momento. A delicia da linguagem perde-se no tempo, esse relógio que continua parado por estas bandas, onde sentimos que apenas podemos viver intensamente cada segundo que vivemos.
A hora de dormir chegou. Os olhos fecharam-se. Amanhã chega outro dia. Amanhã outra etapa. E dizemos boa noite.

Durante dias os nossos corpos mal sentiram a frescura de um banho. Estamos habituados a acordar em nossas casas com a água a escorrer pela nossa pele, mas aqui a única coisa que escorre é mesmo o desejo de prosseguir, de descobrir, de sentir. Difícil é abstrairmo-nos do que nos rodeia, aliás é impossível.
O pequeno almoço, sempre igual, mas sempre delicioso, pelas conversas, pela troca de ideias, pela ansiedade do desconhecido.
Caminhamos, subindo 400m, por carreiros de pedra solta, com os músculos a serem colocados à prova de uma resistência ímpar. Comecei outra batalha. A minha visão perturba-me a alma. Um medo de pequeno. Vertigens. Ao longo dos anos fui combatendo-as e conseguindo vitórias improváveis. E aqui sabia que iria conseguir outra. É uma das tais gaiolas que pensamos não existirem, até elas nos enclausurarem no nosso intimo. Mas eu não podia dizer nada a nenhum deles, não pelo lado da fraqueza, porque fracos somos todos, mas porque o grupo precisava da minha estabilidade. E eu precisava da estabilidade deles. É esta a força de um grupo. A confiança, o sabermos que todos são necessários e todos são fundamentais para todos podermos atingir juntos o nosso objectivo. E caminhei, sempre controlando o meu ser. Mas o estado de viver e experimentar cada passo que dava era também superior a todos os receios que possam assolar-nos. A subida foi intensa, debaixo de um sol que cortava-nos de suor, de um banho de água que íamos sentindo a necessidade de hidratar. E aos 3600m de altitude dá-se a surpresa das surpresas. No meio do nada, o sitio onde o abismo se encontra com o abismo, um outro homem singular, sozinho no seu mundo, vendia Fanta e Coca-cola. Que momento. Afinal a vida surpreende-nos a cada momento. Depois de olharmos os contrafortes do Toubkal, onde o Vale arrebatava os nossos pensamentos, este local, a frescura de um refrigerante que parecia uma quase salvação. A descida esperava-nos, até ao acampamento. Mas antes havíamos testemunhado um outro fenómeno, o das mulas. Nós cansados, exaustos, vertiginoso ou pensativo, e um animal que carregava uma inúmera multiplicação de peso a mais do que nós, sem se queixar, sem pedir nada em troca, fazia o mesmo caminho, mas em metade do tempo. Mula não é um nome feio, é um elogio. Que fique aqui registado.
A descida foi feita por um desfiladeiro, onde as pedras deslizaram e formaram um amontoado, onde 80 e tal curvas foram contadas, e onde a pique descemos até aos 3000m, sitio onde as tendas já nos esperavam. Um local único, como todos, como tudo o que nós sempre fomos vivendo e sentindo. Mas aqui estávamos sós. E o tempo era ainda mais parado. Um pequeno ribeiro que ajudou a uma limpeza mais localizada, mas com uma água fresca e deliciosa. E vieram os outros convidados. Os rebanhos de cabras que todos os dias sobem e ao final do dia descem. Acompanhados pelos seus fieis cães e pastores, elas ecoavam pelos montes e montanhas adjacentes. Era o som que latia como uma melodia. Os nossos olhos perdiam-se no horizonte, nos rebanhos, na cordilheira, na criança que participava da caravana, nas mulas, na lua, no sol. Mas perderam-se por momentos num daqueles segundos que transcendem a essência, o nascimento, a vida a acontecer. Uma cabra deu à luz, mesmo perto de nós, à luz de um dia q ue já adormecia. Fenómenos que deslumbravam o nosso espírito.
Mais um jantar, banquete, conversas, troca de ideias, partilha de sentimentos. O grupo estava mais unido, forte e seguro. E mesmo que o cansaço estivesse um pouco presente ou o pó do dia, os sorrisos eram cada vez mais sinceros e maravilhados.
Dormir. Na solidão do silencio, mas na companhia de um céu que caia sobre nós, pesado de tantas estrelas. Aquela noite era nossa, só nossa. Tínhamos de a desfrutar e de a conservar, só nos nossos corações.

A noite trouxe um silêncio absoluto. Por vezes pensamos que este som , o silencio absoluto, é uma utopia, mas não, estava aqui e agora. Como o tempo. Nas sociedades modernas, perdemos o seu controle, a sua dimensão, mas neste lugar, algures perdidos entre o amasso das montanhas, somos confrontados com a existência real do tempo, que passa numa toada serena e descomprometida com a essência dos nossos pensamentos. Aqui vive-se, sente-se que somos parte de algo, não estamos perdidos na selva humana. Com a manhã veio o cheiro. Aquele cheiro que imaginamos existir. Aquele odor tão suave mas penetrante, que nos refresca o corpo com a sensação de levitação da nossa alma. O pequeno almoço, agora servido livre das paredes da tenda, olhando o infinito, o horizonte que se perdia no ínfimo do nosso olhar.
Os primeiros passos, sempre a descer foram feitos debaixo de uma certa ansiedade do meu ser. Continuava nesta demanda inesperada de auto-controle, qual jaula que despoletou dentro de mim, talvez aprisionada há muito e a necessitar de ser exorcizada. Encontramos um casal de ingleses, perdidos na orientação e na água. Aqui todos somos filhos da montanha, da mesma mãe. Disponibilizamos água, e umas pastilhas para que pudessem reabastecer assim que fosse possível, mas sempre haveria a Fanta aos 3600m. Depois de nos confrontarmos com o cascalho do terreno, as nossas passadas estavam cada vez mais lentas, cuidadas, espontaneamente pensadas, para podermos observar o quanto belo era o envolvente. Uma cascata nasceu nos nossos olhos. A sua queda majestosa, mas ao mesmo tempo, alheada de nós, era uma bela foto, um lugar onde o paraíso começava a desenhar-se, como aquele onde as árvores começavam a receber-nos com as suas cores, os seus odores. Os abrigos dos pastores, onde pudemos abra çar uma cabrita recém-nascida. A aldeia começava a aproximar-se. Sentíamos o seu batimento. Tizi Ossean. As pessoas. As crianças. A menina pequena, com o ranho no nariz, o olhar espantado para alguém que media mais do dobro dela, o pensamento perdido, a corrida rápida e o sorriso sincero. Sim, aqui o sorriso é sincero. Não se sente a hipocrisia dos dias. Não sentimos o cinismo das cidades. Aqui sente-se a Vida. os miúdos que brincam com uma pequena bola de ténis, num campo improvisado, qual estádio onde a multidão vibra com as jogadas e as risadas dos pequenos, que felizes por serem ignorantes do mundo exterior, divertem-se na pureza do momento. As pessoas passavam e cumprimentavam. Dizendo um olá. Acenando um cumprimento verdadeiro. Os sorrisos. Não me canso com eles, pois ainda os tenho na mente, e por mais que queira, não consigo eu próprio imitá-los. Os nossos tem tudo mas não fazem nada, eles não tinham nada e faziam tudo.
Mas com a aldeia veio o rio, a água, esse bem tão precioso e tão esquecido. O banho, nas frias águas e gélidas, mas tão refrescantes quanto libertadoras. Sinto mesmo o exorcismo dos meus ignóbeis pesadelos. Tenho o corpo cheio de vida, de esperanças, de vitalidade. Lavamos as roupas como a musica da Beatriz Costa, e fomos brindados com alguns aldeões Sábios que partilharam connosco a sua Sábia visão da vida. O jardineiro das árvores foi absolutamente majestoso, nas nossas vidas temos de saber regar as árvores do nosso percurso.
Veio mais uma noite e veio uma conversa incrível com o nosso guia. Aqui deixo hoje uma foto dele, quero que a observem, e por momentos fechem os olhos e imaginem um Homem Verdadeiramente Livre, e vão ver o Ahemed. Falou-nos da vida, do passado que já não interessa, apenas é uma lição. Do futuro que virá, mas não é o primordial. Primordial é o presente, que vai passando e nós o vamos perdendo, perdidos entre o que vivemos e o que vamos viver. Falou-nos do amor pela fé, naquilo que é o acreditar de um ser, que não quer saber o que os outros acreditam, apenas sabe que o melhor para si é aquela crença. No amor pelos outros e os outros por nós, quando tomamos uma decisão e se esta nos provoca dor, essa dor irradia-se a todos os que amamos, logo devemos ter atenção, porque somos responsáveis pelo amor que os outros sentem por nós.
E depois veio o sono. E dormimos. Descansados. Libertos.

Veio a manhã. O ultimo dia a caminhar. Não vou perder-me em ultimas descrições. Apenas vos conto que encontramos uma criança que precisava de cuidados médicos. Deixamos medicamento. Mas o seu olhar, o seu corpo franzino, a sua pele encrostada, está-me na memoria. Fiquei ali, naquela aldeia. E ainda lá estou, nas coisas óptimas, mas nas menos boas também. Mas estou na montanha, estou nas pedras, na terra, nos corações das pessoas e dos animais que nos receberam. Estou nas árvores e na água. Estou nos cheiros e no silencio. Estou e fiquei lá. Mesmo no descanso do final, fiquei onde pertenço, perdido nas memorias serenas desta caminhada que representou uma magnifica experiência, mas também um momento de grande esplendor, sim, porque o esplendor da vida é a todo o momento.
Vivam, mas deixem também viver.
Até breve.
Obrigado Atlas, Toubkal , Tizi Ossean, Ahemed e todos os habitantes das aldeias e cidades, pássaros, arvores, animais, caminhantes, mulas, crianças, pedras e ribeiros, a todos o Meu mais Sincero Obrigado por me terem recebido na Vossa Casa.

Carlos Almeida, Marinha Grande
14.09.10






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